Relato sobre o evento iD.bairro_SP (etapa 1)

BR.S/A: Brasil Sociedade Anônima

Intensa experiência de imersão: entre os participantes da oficina, nos bairros vivenciados, e com a cidade de São Paulo (maneiras próprias de viver a cidade).

Durante a oficina, conheci catalães, argelinos, mexicanos, colombianos, chilenos, bascos, paulistas, mineiros, gaúchos. A mescla de culturas e línguas era constante, assim como a vontade de pensar em novas ações de arte para atuar nos bairros que estávamos conhecendo e estudando.

No primeiro dia de visita estivemos na região de Santo Amaro e Grajaú (zona sul de São Paulo, periferia com tonalidades rurais), flanando por paisagens e parando em pontos estratégicos onde o coletivo Imargem realizou alguma intervenção: muros de escolas e alterações no mobiliário urbano (lixeiras e passeios públicos). Tudo muito rápido e quase sem oportunidades de conhecer o pessoal da região. Sei que há a presença de muitos nordestinos, e que esta população acaba ficando por ali mesmo, já que há a dificuldade de comunicação com transporte coletivo para o centro de São Paulo.

No segundo dia, a experiência teve outra escala: as distâncias alcançáveis pelos pés. Mesmo que o perímetro percorrido no bairro do Bom Retiro tenha sido mínimo, pude caminhar por suas ruas, ouvir e gravar falas na rua e identificar pequenos indícios das etnias que habitam o bairro. Me propus a encontrar uma rádio (pensando em usá-la como plataforma de uma ação artística) e, dentro das 2 horas e meia de deriva, encontrei uma dentro de uma igreja evangélica (Assembleia de Deus Bom Retiro). No período da tarde, estivemos com representantes de ONG’s das etnias mais representativas atualmente (duas judaicas, uma coreana e nenhuma boliviana), além de artistas que estão atuando no bairro (Teatro da Vertigem, iniciando a pesquisa para um próximo espetáculo, e Coletivo Coletores, inaugurando uma exposição no Centro Cultural Oswald de Andrade).

B.R+S.A.: Bom Retiro e Santo Amaro

O que pude perceber dos dois bairros em foco é a questão da identidade enquanto tática para a afirmação e sobrevivência na cidade. Afirmar-se como membro de uma etnia é um modo de permanecer vivo, ter seu laço com o passado firme e buscando um espaço de mantenimento desta identidade. Apesar do Brasil ser conhecido como a terra das misturas das etnias, onde a tolerância supera a exclusão, muitos dos mecanismos para a afirmação da identidade são excludentes fazendo com que a convivência entre diferentes seja tolerável na superfície e conflituosa lá no fundo.

Estes conflitos foram notados vagamente nos diversos elementos do espaço público (pequenas bandeiras de países, cartazes usando uma só língua, etc.) e me parece que é necessário muito mais tempo de convivência e imersão para conseguir estabelecer um contato mais real com as pessoas destes locais. Assim, pensar em uma ação artística irá exigir um constante processo de propor algo e ouvir a resposta do contexto.

Depois da proposta de organização das impressões (mapa mental/carta branca/espaço aberto), formei um grupo com Flor e Van Jesus (do EIA) e Nivardo (de Fortaleza, residindo atualmente em São Paulo) para a construção de um dispositivo móvel que alie a dimensão sonora da Rádio e o fazer coletivo e comestível da Gastronomia. Estamos ainda digerindo as ideias e logo colocaremos tudo em ordem (mesmo com este integrante residindo no Rio de Janeiro).

 

Marcelo Wasem

24.10.2010

amiantus.wordpress.com

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